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HISTORIA NATURAL

HISTORIA

NATURAL

ILLUSTRADA

COMPILAÇÃO FEITA SOBRE OS MAIS AUCTORISADOS TRABALHOS ZOOLÓGICOS

JXJLIO IDE 3VE.AuTTOS

TERCEIRO VOLUME

PORTO

LIVRARIA UNIVERSAL

DE

3S/E.A.GA.IjIíÀES & I^OISTIZ EDITORES

13 Largo dos Loyos— H

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U. 3

Porto Imprensa Commercial Rua dos Lavadouros, 16.

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RUMINANTES

(CONTINUAÇÃO)

OS MOSCHOS

Alguns naturalistas collocam estes ruminantes entre os veados de que se approximam pela elegância de formas. A não-existencia porém de cornos é um caracter negativo que, quando outros não existissem, bastaria para fazer considerar arbitraria uma tal collocação. Fazemos pois dos moschos uma familia aparte, seguindo Brehm.

CAP.ACTEBES

Os moschos não teem cornos, nem fossas lacrimaes, nem pêllos cm tufo nas pernas posteriores. A cauda d'estes ruminantes é perfeitamente rudimentar; ou antes no logar de cauda existe um tubérculo, uma li- geira saliência. Os machos distinguem-se de todos os outros ruminantes pela existência de caninos saKentes na maxilla superior^ ora compridos e dirigidos para fora, ora mais curtos e voltados para dentro. Teem os moschos quatorze a quinze vértebras dorsaes, cinco a seis lombares,

6 TTTSTOBTA NATURAL

quatro a sois saibradas e treze caudaes atrophiadas. Ideias parles molles recordam os anlilopes e os veados.

DISTRIBUIÇÃO CxEOGRAPHIfiA

Habitam a Ásia central e meridional, as ilhas e a parte occidental da Africa cenlral.

COSTUMES

Vivem nas regiões pedregosas das altas montanhas, raras vezes perto das florestas, e mais raramente ainda nos valles a que não descem senão quando um inverno rigoroso, roubando-lhes nas montanhas todos os meios de subsistência, os forçam a procurar alimentos em regiões mais ricas de vegetação.

De ordinário vivem solitários; uma espécie apenas forma bandos.

Dormem quasi todo o dia, apparecendo apenas ao fim da tarde, á hora do pôr do sol.

São geralmente vivos e ágeis; saltam e trepam admiravelmente. Garacterisa-os uma grande timidez; ao menor perigo deitam a fugir. São astutos; ás vezes diante de um grande perigo simulam-se mortos.

A fêmea pare um a dois fiihos de cada vez e com grandes inter- vallos.

CAPTIVEIRO

Embora timidos, domesticam-se facilmente, chegando a ter pelo ho- mem uma viva aífeição.

MAMÍFEROS EM ESPECIAL

USOS E PRODUCTOS

A carne é boa e a pelle aproveitável, o que explica a perseguição de que são victimas estes ruminantes. Ha uma espécie que produz al- míscar.

O ALMISCAREIRO

Pertence a um género cujos membros se distinguem pela existência de caninos muito compridos, de um péllo duro e de uma bolsa umbilical, no macho, destinada á produccão de almíscar.

OONSroERAÇOES HISTÓRICAS

Os gregos e os romanos, com quanto apreciadores distinctos das pomadas perfumosas que recebiam da índia e da Arábia, desconheceram completamente o almiscareiro. Na China é, pelo contrario, conhecido ha muitos milhares d'annos. Existem descripções antiquíssimas do animal, como as de Abou Senna, Mosadius e Marco Polo, todas mais ou menos deficientes ou phantasiosas. A primeira descrippão reputada exacta é a de Palias.

HISTORIA NATURAL

CARACTERES

O almiscarciro 6 um ruminante elegantíssimo. Mede oilenla cenli- metros de comprimento sobre sessenta e seis de altura. A parte poste- rior do tronco é ura pouco mais elevada que a anterior; os membros são delgados, o pescoço é curto, a cabeça é alongada e o focinho arre- dondado. Os cascos são pequenos, finos, ponteagudos e susceptíveis de se aíTastarem; as unhas, que são rudimentares, tocam o solo. Esta dis- posição permitte ao animal manter-se sobre os campos cobertos de gelo. O corpo é todo coberto de pêllos abundantes, de um ruivo-trigueiro e mais compridos aos lados do peito, entre as coxas e no pescoço. Estes pêllos são compridos, rijos e crespos. Os caninos no macho fazem uma saUencia de trez a oito centímetros fora da bocca; são dirigidos para baixo e para traz. Na fêmea estes dentes não excedem os lábios.

O almiscarciro entre a depressão umbilical e os órgãos genitaes apresenta uma bolsa arredondada, saliente, de cinco a sete centímetros de comprido sobre trez de largura e trez ou quatro de altura. Esta bolsa é cercada de pêllos aos lados e tem na parte media uma certa porção desnudada, onde vêem abrir-se dois canaes. Pequenas glândulas parie- taes segregam o almíscar que por canaes se despeja na bolsa. No ani- mal adulto, esta contem, termo médio, sessenta grammas de almíscar; algumas vezes encontra-se muito mais. Os animaes não adultos ordina- riamente não produzem mais do que oito grammas. Durante a vida do animal, o almíscar oíferece a consistência do mel e uma cor entre ver- melho e trigueiro; depois de morto o ruminante, a substancia odorífera torna-se n'uma massa granulosa ou pulverulenta, de um trigueiro ruivo que enegrece com o tempo. O cheiro diminue á medida que a côr escu- rece. Este almíscar é solúvel na agua, quente ou fria, e no álcool.

DISTRIBUIÇÃO GEOaRAPHICA

O almiscarciro habita todos os cumes das montanhas da Ásia cen- tral.

mamíferos em especjal

COSTUMES

Vivendo do preferencia nas montanhas, conserva-se geralmente a uma altitude de mil a dois mil c trezentos metros acima do nivel do mar. É raro, muito raro, encontrar-se n'um valle a uma altitude inferior a trezentos metros. Vive solitário, excepção feita para a epocha do cio, e occulto o dia inteiro; de noite vagueia.

São rápidos e cheios de segurança os movimentos d'este ruminante. Corre com ligeireza egual á do antílope, salta com a destreza do bode- quim e trepa com a intrepidez do gamo. Sobre os campos cobertos de gelo, onde a maior parte dos animaes a custo conseguem mover-se, o al- miscareiro corre com facilidade espantosa. Quando o attacam de perto, salta enormes precipicios sem se molestar, corre ao longo dos rochedos onde mal encontra espaço para poisar as patas ou, se tanto é preciso, attravessa a nado as correntes.

Tem sentidos muito perfeitos, mas uma intelligencia muito limitada e uma grande timidez de caracter. Quando o surprehende um perigo, foge, correndo desesperadamente sem bem saber para onde.

A epocha do cio é em Novembro ou Dezembro. Realisam-se então entre os machos tremendos combates em que os dentes se tornam armas terríveis. Raros são os machos adultos que não apresentam pelo corpo largas cicatrizes, testemunhas d'esses renhidos combates. Durante o cio, o cheiro d'almiscar exalado pelos machos é de uma pasmosa actividade; dizem alguns caçadores que elle se sente a um quarto de légua de dis- tancia. Em Maio ou Junho, isto é seis mezes depois das relações sexuaes, a fêmea pare um a dois filhos, que nascem completamente formados. A mãe conserva-os junto a si até uma nova epocha de cio. Os novos seres ao fim de trez annos são adultos.

O almiscareiro escolhe, sempre que ha logar para isso, as liervas melhores e mais succulentas.

CAÇA

A caça feita ao almiscareiro é das mais diíficeis; concorre para isto a timidez excessiva do animal, a sua perpetua desconfiança, que poucas

10 HISTORIA NATURAL

vozes pcrmiltcm ao caçador encontral-o ao alcance da arma. De ordinário a caça faz-so por meio de laços que se dispõem pelos caminhos que o almiscareiro lom de attravessar. Na Sibéria apanlia-sc por meio de ar- madilhas a que servem de engodo os licliens. lia logares onde se fecham os valles com estacarias altas de todos os lados, deixando aberta ape- nas uma fenda onde os laços se dispõem. N'outros pontos mata-se o al- miscareiro á ílexa, attraindo-o por sons que lhe imitam a voz. (cAcontece ás vezes, diz Brehm, que, em vez do almiscareiro, apparecem um urso, um lobo ou um rapozo, enganados também pelo som.w * O almiscareiro tem o costume de voltar sempre ao logar que uma vez escolheu para repousar. É d'este costume, d'esta persistente tendência que os caçado- res muitas vezes se aproveitam.

CAPTIVEIRO

As informações sobre este ponto são deficientissimas. Sabe-se ape- nas de dois casos de captiveiro, um realisado em Paris, outro em Lon- dres. Os animaes captivos não duraram muitos annos, mas viveram sem- pre alegres e com saúde. O de Paris succumbiu a um desastre, a obs- trucção do pyloro por uma porção de pôllos que ingerira.

usos E PRODUCTOS

A carne do almiscareiro não é boa; o almiscar porém, é um bello producto de grandes resultados commerciaes. D'este almiscar ha muitas qualidades, sendo considerado o melhor e o menos sujeito a sophistica- ções o chamado Cabardin ou da Rússia. A pelle serve para a fabricação de bonnets e vestidos.

> Broliin, nin: <■!/., vol. 2.», pg. 4(;i.

MAMÍFEROS EM ESPECIAL

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O MOSCHO MENOR OU MÍNIMO

É o mais pequeno dos ruminantes. DiíTere essencialmente da espé- cie anterior pela não existência da bolsa de almiscar.

CARACTERES

Mede apenas cincoenta centimetros de comprimento, pertencendo quatro á cauda; a altura, medida ao nivel da espádua é de vinte e dois centimetros. A parte posterior do corpo é, como no almiscareiro, um pouco mais alta do que a anterior. O pêllo é fino. A cabeça é ruiva com o vértice quasi negro; a parte superior do corpo é de um trigueiro ama- rellado com cambiantes ruivas e um traço negro ao longo da columna; os lados do corpo são claros e o ventre branco. Os machos teem cani- nos que excedem as gengivas de trez centimetros e que são fortemente recurvos, dirigidos para fora e para traz.

DISTRIRUIÇAO GEOCRAPTTICA

Java, Singaporo e Pinang são a pátria d'este curioso animal

COSTUMES

Vivem nas florestas espessas, preferindo as montanhas ás planícies. Tem hábitos solitários; no tempo do cio se encontram juntos ma- cho e fêmea. Vive o dia inteiro escondido nos arvoredos espessos, onde

12 HISTORIA NATURAL

om repouso se entrega á ruminação; ao cair da tarde sae em busca do alimento que consiste principalmente em folhas, hervas e fructos de toda a ordem.

Os movimentos d'cste animal são leves e graciosos; saltos rela- livamente grandes e vence com destreza as maiores diíficuldades. É muito ardiloso; quando se sente perseguido e tem poucas probabilida- des de escapar, fugindo, fmge-se morto para desviar o inimigo e corre quando o sente a distancia bastante. Os indígenas quando querem desi- gnar de um modo expressivo um homem impostor, dizem d'elle: ma- nhoso como o moscho menor, phrase que corresponde á nossa: astuto como o rapozo.

Sobre a reproducção d'este ruminante nada lemos de authentico; parece que a fêmea não produz em cada parto mais que um filho.

CAPTIVEIRO

Parece não soffrer muito com a perda de liberdade. Actualmente encontra-se em muitas coUecções de animaes expostas na Europa. Tem-se conseguido mesmo a reproducção em captiveiro.

usos E PRODUCTOS

Em Java a carne d'este ruminante é estimada como alimento. Os pés, finíssimos e elegantes, engastados em ouro ou prata servem na con- fecção de alguns objectos de luxo e de gosto, nos cachimbos, por exemplo.

mamíferos em especial

13

os VEADOS

Constituem pela sua reunião uma familia importantíssima da ordem dos ruminantes e fácil de conhecer e distinguir, como pelo estudo que vamos fazer se deprehenderá.

CARACTERES

São ruminantes de cornos, de dimensões superiores ás dos mos- clios, de caninos curtos, de corpo alongado, elegante, perfeito e rigoro- samente proporcionado, de pescoço vigoroso, de olhos grandes e vivos, de orelhas finas, direitas e muito moveis. Geralmente os machos apresentam cornos, isto é prolongamentos ramificados do frontal e que todos os annos caem para ser por outros substituídos. A muda dos cor- nos está ligada à actividade sexual. Se um veado se castra e na epocha da operação possuia cornos, ficará perpetuamente com elles; se os não tinha n'essa occasião, não os readquire; se a castração foi unilateral, do lado não operado tornam os cornos a reproduzir-se. No recemnas- cido nota-se desde logo no ponto de inserção dos cornos um insoUto desenvolvimento do frontal. Aos seis ou oito mezes apparece no logar indicado uma sahencia óssea que persistirá toda a vida e da qual os cor- nos tomarão origem.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRAPHICA

Existem hoje, como existiram em epochas geológicas anteriores á nossa, em todas as partes do mundo, em toda a terra, excepção feita da Austrália e de uma certa parte, ahás considerável, da Africa.

li IIÍSTOIUA NATURAL

COSTUMES

Eficoritram-sc nos climas quentes como nos írios, nas planícies como nas montanhas, nos logares descobertos como nos bosques largamente e densamente arborisados, nas regiões seccas como nas pantanosas, em toda a parte e em todas as condições.

São animaes sociáveis; muitos reunem-se em bandos numerosíssi- mos. Durante o estio, os velhos machos, separam-se de ordinário das íemeas e vivem ou solitários ou unidos uns aos outros.

Na epocha do cio juntam-se aos bandos das fêmeas e provocam os rivaes; é então que se ferem as luctas tremendas d'onde resultará a se- lecção sexual.

São quasi todos animaes nocturnos; no entanto os que vivem nos logares desertos, tranquillos, procuram de dia mesmo o alimento.

Todos estes ruminantes são vivos, ágeis, um pouco tímidos, rápidos em todos os movimentos e intellígentes.

Alímentam-se exclusivamente de vegetaes e bebem muita agua.

A fêmea pare um, dois e ás vezes trez filhos, que nascem comple- tamente desenvolvidos e que ao íim de alguns dias seguem a mãe por toda a parte. A fêmea é de uma extraordinária solhcitude pelos recem- nascídos, aos quaes defende contra todos os perigos. Espécies ha em que o macho cuida também da prole com extremo desvello.

GAPTIVEIRO

O captiveiro ó para estes ruminantes uma crueldade contra a qual perpetuamente se revoltam. Se é certo que em novos parecem aífei- çoar-se ao homem e tributar-lhe uma grande dedicação, não é menos certo que progredindo em edade se tornam mãos, coléricos, indóceis. O rangifero, que ha muitos séculos vive captivo, esse mesmo não é, como poderá suppôr-se, uma excepção; a sua domesticação é, no dizer de Brehm e d'outros naturalistas, pronuncíadamente incompleta.

MAMÍFEROS EM Ebl»EClAL

CSOS E PUUDLCTOS

Se fizermos uma exceppão para o raiigiíero, cuja ulilidade para a nossa espécie é, como veremos, incontestável, pode francamente dizer-se que a família dos veados nos causa prejuizos apenas. É boa a carne? Tiramos proveito dos cornos? É a pelle susceptivel de utilisar-se? Pode decerto responder-se aífirmativamente. Mas o que é tudo isto, se nos lem- bramos dos estragos produzidos por estes ruminantes nos logares cul- tivados ?

Estão comprehendidos na familia que acabamos de descrever, como géneros principaes : os alces^ os rangiferos, os gamos j os veados propiia- rnc7Ue ditos o os zorlitos. D'estes géneros passamos a occupar-nos.

OS ALCES

São os representantes mais notáveis cm grandeza da familia dos veados.

CAKAGTEHES

São fortes, pezados e muito altos. Teem cornos compridos, largos e muito ramificados. Não possuem caninos. A cabeça é comprida, a rc-

16 HISTORIA NATURAL

j,náo nasal muito desenvolvida, o lábio inferior procidente e a cauda curta; os olhos sào pequenos e as orelhas compridas e largas.

O ALCE MAIOII

É um animal de grandes propor^iões. O macho adulto tem dois me- tros e sessenta centímetros a dois metros e oitenta de comprido sobre dois metros de alto. O comprimento da cauda é de dez centímetros. O pezo médio é de duzentos a trezentos kilogrammas, chegando alguns animaes velhos a attlngir quinhentos. O corpo é curto e grosso, o peito largo, a espádua elevada, formando uma hgeira corcova, e o dorso recto. Os membros são altos e muito fortes. Os cascos são finos, pro- fundamente fendidos e hgados na origem por uma membrana extensível. A cabeça c grande, alongada, o focinho comprido, grosso, largo, obtuso e o pescoço curto, forte, muito vigoroso; o nariz é cartilagineo, o lábio superior espesso, fendido, extenso e muito saUente. Os olhos são peque- nos e muito encovados. As orelhas são compridas e largas, mas termi- nando em ponta e moveis em todos os sentidos. Os cornos do animal são constituídos por hastes curtas que se alargam trlangularmente. O péllo é curto e espesso. Sobre a nuca e pescoço este péllo chega a attlngir vinte centímetros de comprido, d'onde o nome de élmi à crinière dado pelos francezes a este animal. A cor do manto é um trigueiro ruivo bas- tante uniforme. A fêmea é mais pequena que o macho e é desprovida de cornos; os seus cascos são mais compridos e mais finos e as unhas mais curtas que as do macho. A cabeça da fêmea recorda a das mulas.

DISTRIBUIÇÃO GKOGRAriUCA

Habita as florestas do norte da Europa e da Ásia. Na Europa esten- de-se até ás costas do Báltico; encontra-se na Prússia oriental, na Lithua-

mamíferos em especial 17

nia, na Livonia, na Suécia, em Noruega, em alguns pontos da Grande Rússia, etc. Segundo Brehm, em 1746 matou-se o ultimo alce maior em Saxe e em 1760 o ultimo também na Galiza.

É mais commum na Ásia do que na Europa; em todos os pontos d'aquelle continente onde existem florestas, o notável ruminante atii existe.

costumes

Os togares preferidos por este ruminante para habitação são as flo- restas, principalmente as dos togares desertos e pantanosos. De Abril até Outubro, o alce maior vive em togares baixos; depois, no inverno, procura as regiões elevadas, não expostas ás inundações e não cobertas de gelo. Quando o inquietam ou não encontra alimento bastante n'um local, muda-se para outro.

É sociável; vive geralmente em pequenos bandos compostos de quinze a vinte indivíduos; perto da epocha do parto, os velhos machos abandonam estes bandos, que ficam exclusivamente formados por fêmeas e pequenos machos, não aptos ainda para a reproducção.

Se o não incommodam, se ninguém o inquieta, o alce maior va- gueia dia e noite, embora seja naturalmente nocturno.

Alimenta-se de folhas, de renovos e de cascas d'arvores, o que o torna immensamente prejudicial. Quando se encontram n'uma floresta arvores despidas de casca, pode estar-se certo de que o alce maior não está longe; é assim que os caçadores sabem onde perseguil-o. im- pellido pela necessidade, procura alimentação vegetal diíferente da que referimos. Causa por isso mais estragos nos campos em cultura do que nas florestas.

É menos ágil e menos gracioso que os veados propriamente ditos; não se pense todavia que é moroso: calculasse que pode percorrer n'um dia quatrocentos kilometros.

^ Passa por ser um bello nadador, que entra na agua não quando o força a necessidade, mas por prazer.

Quando corre, costuma erguer a cabeça de modo que os cornos lhe flcam em posição horisontal; esta attitude fal-o cair muitas vezes. Quando isto acontece, o animal, tentando levantar-se, agita muito as patas de deante e estende as posteriores até junto da cabeça. D'aqui uma fabula curiosíssima, segundo a qual o ruminante soíTreria de attaques epile-

VOL. III 2

18 IIISTOIIIA NATURAL

cticos, usando para a cura do processo singular de arranhar as orelhas até ellas verterem sangue!

O ouvido e a vista do alce maior são sentidos perfeitíssimos; o ol- lato é menos apurado. Não é intelhgente, mas não tem também a timi- dez dos veados propriamente ditos.

Vive em boa harmonia com os seus congéneres, excepto na epocha do cio, em que entre os machos se trava uma lucta tremenda para a posse das fêmeas e direcção dos bandos. O cio nas costas do Báltico rea- lisa-se em fins de Agosto, na Rússia asiática em Setembro e Outubro. Durante esse tempo de excitação, o alce maior é perigoso até para o homem, attacando, se é ferido, o caçador que não logrou matal-o.

A gestação dura trinta e seis a quarenta semanas. O primeiro parto geralmente origem á apparição de um filho e os que se lhe se- guem á de dois, de ordinário de sexos differentes. Ao terceiro ou quarto dia de vida extra-uterina, os recemnascidos seguem a mãe; a ama- mentação prolonga-se até á primeira epocha de cio que depois do parto tem logar para as mães. Estas defendem corajosamente os filhos, che- gando a proteger-lhes o cadáver.

INIMIGOS

Os principaes são o lobo, o lynce, o urso e o glutão. O lobo dà-lhe caça no inverno, quando o gelo é muito; o urso apenas attaca indiví- duos isolados; o lynce e o glutão lançam-se das arvores sobre o dorso do ruminante que passa, agarram-se-lhe ao pescoço e abrem-lhe as ca- rótidas. São estes últimos os mais terríveis inimigos do alce. Do urso e do lobo defende-se com os cornos; em face do glutão e do lynce que o attacam d'alto, fica desarmado.

CAGA

N'outro tempo fazia-se a este ruminante uma grande caça a tiro, com laços e com armadilhas. Hoje essa caça diminuiu e ha mesmo toga- res em que está prohibida, como em Noruega, onde por matar um alce

mamíferos em especial

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maior se paga ou se pagava não ha muitos annos a multa de duzentos e vinte francos.

GAPTIVEIRO

Gomo todos os ruminantes da vasta familia dos veados, este domes- tica-se bem emquanto novo, mas acaba por se tornar mao, com os pro- gressos da idade. Ao principio parece prosperar no captiveiro, mas de- pois começa a emagrecer e muitas vezes morre dentro de um curto es- paço de tempo. É diíficil conserval-o captivo por mais de trez a quatro annos; como o provam numerosos casos narrados pelos naturalistas, por melhores que sejam as condições de vida do alce captivo, por maiores que sejam os cuidados do homem, por mais abundante que seja o ali- mento, o animal não resiste á perda de liberdade.

usos E PRODUCTOS

No alce maior teem utilidade a carne, a pelle e os cornos. A carne é melhor, mais tenra que a dos veados propriamente ditos e a pelle é melhor e mais solida. Os ossos duros e de uma grande alvura, são tam- bém muito estimados. N'outro tempo as differentes partes do corpo d'este animal entravam na manipulação de diversíssimos medicamentos. É de notar que todas estas utihdades do animal estão abaixo dos estragos que elle produz. Nas florestas é um verdadeiro flagello.

20 HISTORIA NATURAL

O ALCE ORIGINAL

É assim que denominam em França o ruminante de que vamos occu- par-nos. Não nos foi possivel saber se existe em portuguez algum nome especial para designal-o; por isso conservamos a designação estran- geira. *

CARACTERES

Distingue-se da espécie anterior pela existência de chanfraduras mais profundas nos cornos, por menor abundância de pêilo comprido sobre o pescoço e ainda porque a côr do manto é mais escura. No en- tanto a independência especifica do alce original tem sido mais do que uma vez contestada.

É mais alto que o cavallo. A cabeça tem mais de sessenta e seis centímetros de comprido e é pezada. Os olhos são pequenos e encova- dos; as orelhas assemelham-se ás do jumento; são como as d'este com- pridas e peitudas.

É esta a descripção que do animal faz Hamilton-Smith.

COSTUMES

Os hábitos de vida d'este ruminante são os mesmos que caracteri- sam a espécie anteriormente estudada. O alce original muda os appen-

1 A cada passo lactamos com a diflSculdade de saber a designação portugueza das espécies. Conhece-se muitas vezes a descripção de um animal, mas não se lhe conhece o nome em lingua portugueza. As averiguações n'este sentido são difficeis de fazer.

mamíferos em especial 21

dices frontaes mais tarde que o alce maior, em Janeiro ou Fevereiro e mesmo, quando os invernos são rigorosos, em Março.

DISTRIBUIÇÃO rrEOCxRAPHICA

Enconlra-se ao norte e um pouco a leste da America.

CAÇA

O preconceito indigena de que quem come a carne do alce original fica habilitado a correr trez vezes melhor do que ingerindo outra carne qualquer, faz com que este ruminante seja tenazmente perseguido. Os indígenas dando caça a este animal, procuram principalmente fazel-o entrar na agua onde o seguem em canoas e onde lhes é fácil matal-o.

CAPTIVEIRO

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Gomo todos os ruminantes da famiha, o alce original domestica-se facilmente em quanto novo, chegando a conhecer dentro de poucos dias o dono e a seguil-o por toda a parte; pouco e pouco porém, á medida que avança em idade, torna-se selvagem, colérico, perigoso. Andubon conta o facto de um alce original captivo que, ainda novo, parecia ser absolutamente indomesticavel. O caso é certamente excepcional.

22 HISTORIA NATURAL

USOS E PRODUCTOS

A carne é um alimento bom; com os cornos fabricam-se colheres e outros utensílios domésticos; a pelle contribuo para a formação de ca- noas. Ha uma praça celebre entre os indígenas onde se eleva uma alta pyramide formada na maior parte por cornos de alce original.

OS RANGIFEROS

Na família dos rangiferos ambos os sexos apresentam cornos, con- sistindo em uma haste cylindrica, muito curta, ramificada em dois gran- des galhos achatados, dos quaes um se eleva para o ar ramíficando-se a seu turno e o outro se estende horisontalmente. Os cascos são muito largos. As formas são pezadas; a cabeça é sobretudo desgraciosa.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRAPHIGA

Pertencem exclusivamente ás regiões frigidas do hemispherio bo- real.

mamíferos em especial

o RANGIFEKO DA AMERICA

Ha naturalistas que concedem ao rangifero da America as honras de espécie á parte. Para fundamento d'esta opinião allegam que o rangi- fero da Europa diífere do rangifero da America pela estatura, pela côr e pelo género de vida.

Será completamente assim? Não podemos dizel-o. O rangifero ame- ricano é certamente maior que o europeu, tem os cornos mais pequenos e o manto mais escuro; segundo naturalistas auctorisados, elle viveria solitário nas florestas e não emigraria. Ha porém observadores que con- sideram todos estes caracteres como secundários e insignificantes e por isso não crêem possivel uma distincção de espécies. Tal é o estado da questão.

O RANGIFERO DA EUROPA

Este ruminante é conhecido desde uma remota antiguidade. Júlio César deixou-nos d'elle uma descripção muito exacta. Em 1675 Schefler, de Strasburgo, pubKcou um livro de grande merecimento sobre a Lapo- nia, onde o animal é muito bem estudado. Linneu que o observou, elle próprio, minuciosamente, legou-nos a seu respeito um trabalho impor- tante que outros naturalistas completaram depois. Hoje pode conside- rar-se este ruminante como completamente conhecido, ainda nas maiores minuciosidades dos seus hábitos de vida.

24 HISTORIA NATURAL

CARACTERES

Mede um metro c setenta centímetros a dois metros de comprido, tendo a cauda quatorze centímetros. A altura, medida ao nível da espá- dua é de um metro e quinze centímetros. Os cornos são mais pequenos e menos bellos que os dos veados propriamente ditos.

O tronco do rangifero não differe do tronco do veado senão em affe- ctar posteriormente mais largura; mas o pescoço e a cabeça são mais pezados, menos graciosos, os membros são mais curtos e os cascos me- nos elegantes. De resto, o rangifero está longe de ter o porte do veado.

Na fêmea os cornos são mais pequenos e menos divididos que no macho, affectando sempre uma forma mais ou menos irregular.

O manto do rangifero europeu é mais denso que o de qualquer ou- tro ruminante da família. Os pêllos são ondulados, rijos e quebradiços; são mais compridos e mais flexíveis na cabeça, no pescoço e nos mem- bros do que em qualquer outra parte. Na parte anterior do pescoço, estes péllos formam uma espécie de crina que algumas vezes desce até ao peito. No inverno o péllo cresce muito e isto explica por que o ran- gifero supporta frios excessivos, rigorosíssimos. O rangifero selvagem muda de pêllo duas vezes por anno. O rangifero domestico apresenta-se de verão com o manto extremamente escuro; de inverno, pelo contrario, a côr geral do manto é clara.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRAPHICA

Habita o norte da Europa sendo ahi vulgar em muitas regiões.

COSTUMES

Vive exclusivamente nas montanhas, nos pontos mais elevados e desguarnecidos de vegetação, onde a custo medra alguma rara planta.

mamíferos em especial

25

Evita os logares baixos e as florestas. Apenas na Sibéria, segundo infor- mação de Palias e Wrangel, o rangifero habitaria as florestas, os logares largamente arborisados. No dizer d'esle ultimo naturalista, o rangifero emprehende em Maio uma verdadeira emigração, abandonando as flores- tas onde se abrigou do frio, para partir em bandos para as regiões se- ptentrionaes, mais abundantes em musgos e lichens, e onde o não per- seguem os insectos. Nas florestas, com effeito, os mosquitos e outros animalculos aliados, egualmente incommodos, atroam os ares. Os rangi- feros são ás vezes forçados a attravessar cursos d'agua; escolhem então os logares menos largos e passam encostados uns aos outros, cobrindo quasi toda a superfície d'agua. Vistos de longe n'estas condições, pare- cem florestas errantes.

Em a Noruega não se reahsam estas emigrações. Quando muito, o rangifero ahi passa do topo de uma montanha a um outro.

O rangifero selvagem é um animal em extremo sociável; vive de ordinário em bandos muito mais numerosos que os formados por quaes- quer outros ruminantes da familia. Solitários, encontram-se apenas ve- lhos machos expulsos dos bandos.

O rangifero é um animal admiravelmente apropriado á vida dos paizes do Norte. Graças á conformação dos cascos, elle pode perfeita- mente correr pelos pântanos e pelo gelo e bem assim trepar com extraor- dinária facilidade pelos flancos das montanhas.

Um facto muito curioso, muito interessante e que ainda hoje não tem uma explicação defínitiva é que o rangifero em marcha faz ouvir a cada passo um ruido particular comparável ao produzido por uma faisca elé- ctrica. Teem-se emittido acerca d'este phenomeno muitas opiniões, accei- tando hoje alguns naturahstas a hypothese de que o ruido seja articular. É talvez a conjectura mais acceitavel.

O rangifero caminhando sobre os terrenos pantanosos e sobre o gelo, alarga os cascos resultando d'ahi uma pista muito mais parecida com a da vacca do que com a do veado propriamente dito.

O rangifero selvagem nada com facihdade extrema; attravessa rios larguissimos. O rangifero domestico, pelo contrario, não entra na agua sem uma repugnância manifesta.

Sob o ponto de vista dos sentidos, o rangifero é um animal admiravel- mente dotado. O olfato é muito fino, tendo o poder de apreciar os cheiros á distancia de quinhentos ou seiscentos passos; o ouvido é tão apurado como o dos veados propriamente ditos; a vista é de tal modo prespicaz que toda a prudência ó pouca ao caçador, mesmo quando mais occulto se imagina. O tacto é de uma sensibihdade extrema; o mais ligeiro insecto que pouse sobre o dorso do ruminante é por elle sentido. O palladar é apu- rado; por elle consegue o animal fazer uma rigorosa selecção de plantas.

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O rangifero selvagem possue, no dizer de todos os caçadores, uma grande prudência e até bastante astúcia. Não tem medo dos outros ani- maes; o terror que o homem liie inspira não 6 de modo nenhum ins- tinctivo, mas, pelo contrario, um resultado da experiência. Ora para que a experiência logre produzir n'um animal os seus benéficos effeitos, é mister admittir da parte d'elle uma certa intelHgencia.

No estio, quando os pastos são abundantes, o rangifero preocupa-se pouco com a alimentação; tem logar então de escolher plantas succu- lentas. No inverno, porém, carece para alimentar-se de desligar com os cascos os lichens e musgos que cobrem as paredes. Em Noruega, mesmo de inverno, evita as florestas, e busca os pântanos. Nunca remexe o solo com os cornos, como erradamente se tem dito, mas com os cascos. É de madrugada e ao fim da tarde que o rangifero procura o alimento. Durante o dia deita-se e rumina ou sobre o gelo ou perto d'elle.

Em Noruega a estação do cio para o rangifero é nos fins de Setem- bro. Ha então entre os machos longos combates impetuosos e terríveis. A gestação dura até meiados de Abril; o parto produz um filho apenas, muito gracioso, que a fêmea aleita durante muito tempo e a que tributa uma enorme aíTeição. Na primavera é vulgar encontrarem-se famihas compostas exclusivamente de um macho, uma fêmea e um recemnascido. quando os filhos são grandes é que as famílias se reúnem em bandos de cuja direcção se encarregam naturalmente os velhos machos. Os ran- giferos velam cuidadosamente pela mutua segurança: em quanto o bando repousa e rumina um d'entre todos conserva-se erguido e vigilante; se este precisa de deitar-se, levanta-se logo um outro que o substitue.

CAÇA

Não é fácil emprehender a caça do rangifero; Brehm diz que é pre- ciso ser-se um apaixonado naturalista para ter animo de arcar com as difficuldades de todo o género que a perseguição a este ruminante acar- reta. É necessário, primeiro que tudo, possuir uma constituição robus- tíssima; são precisos valentes pulmões para ascender aos topos elevados das montanhas, membros musculosos que resistem ás longas caminha- das, estômago que permitia soff'rer prívações alimentares sem quebra immediata da saúde, um largo dorso emfim que permitia accommodar sobre elle as provisões de muitos dias, porque n'esta caça, como na do dromedário, é indispensável levar o mantimento que em parle alguma

mamíferos em especial

se encontra. E ainda não é tudo. Para caçar o rangilero é preciso ter a coragem de viver dias seguidos em plena solidão e de dormir sem com- modidades na primeira gruta ou na primeira cabana de pedra que se encontra.

Para se deitar n'uma cabana de pastor, seria preciso ao que anda em caça descer quatrocentos ou quinhentos metros e subil-os na manhã do dia immediato. Seria um trabalho absolutamente impossível; as com- modidades por tal preço degeneram naturalmente em violências. De resto, na caça do rangifero é indispensável da parte do caçador um enorme dispêndio de atlenção: é preciso observar cuidadosamente a di- recção do vento, a altura do sol, o bom ou mau tempo, conhecer os legares favoritos do ruminante, saber-lhe perfeitamente os costumes, se- guir-lhe escrupulosamente a pista, emfim não descurar a observação da circumstancia ainda a mais fútil na apparencia :uma pedra deslocada, uma folha partida ou arrancada do tronco, etc. É pois como dissemos e como acaba de provar-se, uma caça diíTicil pelo conjunto enorme de con- dições que exige da parte do que a emprehende. Ha ainda a conspirar com todas as outras, uma difficuldade grande n'esta caça: é a circums- tancia de se harmonisar admiravelmente a cor do rangifero com a do solo por forma a ser precisa da parte do caçador uma vista extrema- mente prespicaz para descobrir o ruminante a distancia de podel-o ferir.

Quando se encontra um bando de rangiferos é precisa toda a pru- dência; o menor movimento bruscamente executado é motivo bastante para pôr os animaes em debandada. Para evitar este inconveniente, que implica nem mais nem menos que a annulação completa de todo o tra- balho anterior, é necessário que o caçador saiba esconder-se á vista dos ruminantes e marchar para elles, rastejando, sem ruido. Os caçadores norueguezes procedem assim e não atiram sobre os ruminantes senão á distancia máxima de cento e vinte passos, o que pode exphcar-se pela pouca perfeição das armas de que usam.

Na Sibéria o processo de caça é outro. Ahi os caçadores, para quem a maior ou menor quantidade de rangiferos mortos decide da abundân- cia ou miséria da vida durante o anno, esperam o periodo de emigra- ção do ruminante para procederem ao attaque. Sabendo que os rangife- ros teem de attravessar em bandos um certo curso d'agua, occultam-se sob a folhagem marginal ou por traz de rochedos próximos e ahi aguar- dam pacientemente o momento de chegada dos animaes. Então, no ins- tante em que os rangiferos penetram na agua, os caçadores, abando- nando os escondrijos, penetram rapidamente em pequenos barcos e cer- cam o bando dos emigrantes; em quanto uns tomam a passagem aos quadrúpedes, procurando suspendel-os, fazel-os parar, outros ferem-os com piques, espécie de lanças compridas.

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Esta caça, geralmente productiva, não deixa de offerecer grandes perigos. Os rangiferos perseguidos na agua tentam defender-se, arreme- tendo contra os barcos e procurando voltal-os. Se o conseguem, a silua- pão dos caçadores torna-se desgraçada, porque é então muito raro que consigam escapar a nado, tal é a perseguição que lhes movem os ran- giferos, servindo-se dos cornos e dos cascos para os obrigarem a mer- gulhar. Wrangel, que descreve esta caça, reputa desesperada a situação do caçador caído á agua; é-lhe quasi impossível, diz o escriptor citado, sair do meio da massa d'estes animaes.

INIMIGOS

Além do homem, tem o rangifero outros inimigos. D'entre todos é o lobo o mais temivel, principalmente no inverno. Se o gelo é muito e forma sobre o solo uma camada muito espessa, o rangifero não receia muito o lobo; mas se o gelo é em pequena quantidade, se tem caído de pouco tempo, então a marcha é para o rangifero muito fatigante e o re- ceio de encontrar o lobo torna-se absorvente. Quando nas altas monta- nhas, os rangiferos se juntam em bandos, os lobos agremiatn-se também e travam-se então entre as espécies luctas vigorosas, tremendas. Os car- niceiros seguem os ruminantes que emigram, fazendo-lhes constante- mente uma guerra, cujo resultado é a diminuição do numero d'estes.

O glutão, o lynce e o urso são também inimigos perigosíssimos do rangifero.

Os inimigos porém que incontestavelmente devemos reputar mais perigosos para o rangifero são trez pequenos insectos: uma mosca de ferrão comprido, perfurante e duas espécies de tabão ou moscardo. Ou- çamos o que a este respeito diz Brehm: «São estas moscas que deter- minam a emigração dos rangiferos; é para lhes fugir que os míseros ru- minantes buscam as costas do mar ou os topos das montanhas; são ellas que os atormentam noite e dia, ou antes durante o longo dia que dura o verão inteiro. Para comprehender os tormentos por que passam os po- bres rangiferos, seria necessário ter-se experimentado uma applicação constante de ventosas durante dias e semanas. Os moscardos produzem aos rangiferos tormentos ainda maiores, mais cruéis. Uma das espécies deposita os ovos na pelle do dorso dos pobres ruminantes e a outra nas narinas; as larvas criam-se ahi. As da primeira espécie furam a pelle, penetram no tecido cellular, alimentam-se ahi do pús que a sua pre-

mamíferos em especial

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sença determina, originam abcessos dolorosissimos, abrem caminhos sub- cutâneos e apparecem á superfície no momento de experimentarem as ultimas metamorpboses. As larvas da segunda espécie mergulham nas fossas nasaes, furam-as, penetram no cérebro, determinando diíferentes formas de modorra ou coma ou attingem o palatino e impedem o ran- gifero de comer até que consiga expulsal-as á força de espirros. É em Julho ou começos de Agosto que a fêmea doestes moscardos deposita os ovos e é em Abril ou Maio que as larvas se desenvolvem. A doença pode reconhecer-se desde o começo pela diíFiculdade que os rangiferos expe- rimentam em respirar; nos animaes novos a morte sobrevem rapida- mente. Para os desgraçados rangiferos ha uma espécie de gralha que se torna então um verdadeiro bemfeitor. Caindo sobre o dorso do rumi- nante, extrae-lhe dos abcessos os vermes; os rangiferos que sabem quanto isto lhes aproveita, deixam a ave levar tranquillamente a cabo a melindrosa operação.» *

GAPTIVEIRO

Quando se captiva novo ainda, o rangifero domestica-se depressa. No entanto não pode nunca ser comparado aos outros animaes domésti- cos; aíTirma Brehm que mesmo os descendentes de rangiferos que se encontram reduzidos ao captiveiro desde tempos immemoriaes, perma- necem ainda n um estado de semi-selvageria. Para a direcção dos reba- nhos não podem dispensar-se nem os homens, nem os cães.

Observemos desde que a vida do rangifero domestico differe completamente da que passa o rangifero selvagem. O animal em domes- ticidade é mais pequeno e mais feio; os cornos caem-lhe mais tarde; a reproducção faz-se n'uma estação differente; finalmente vive em perma- nentes viagens. Ás vezes vive inteiramente sob o dominio do homem; outras porém, procura elle próprio a liberdade, sendo então o dono for- çado a procural-o. O dono de um rebanho de rangiferos passa uma vida tormentosa, porque em vez de ser, como parece, o senhor dos seus ani- maes, é, pelo contrario, o escravo d^elles, sendo forçado a emigrar quando elles emigram, a viver nas alturas ou á beira do mar consoante apraz aos ruminantes e, o que muito custa, a defendel-os contra os atta- ques do lobo. O que vale ao homem n'estes trabalhos é o cão, que lhe

Brehm, Obr. ciL, vol. 2.°, pg. 486.

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presta enormes serviços. Sem elle, o homem não conseguiria decerto manter em ordem rebanhos de rangiferos superiores muitas vezes a tre- zentas ou quinhentas cabeças. É o cão, que correndo vigilante em torno do rebanho, consegue impedir que alguns individues se percam ou fazer que retomem o seu logar os que se tresmalharam. Ás vezes, completa- mente fatigado, exhausto inteiramente pelas viagens forçadas, o homem deixa-se repousar, adormecer, entregando exclusivamente aos cães a guarda dos preciosíssimos rebanhos.

Os serviços enormes que o rangifero captivo presta á nossa espé- cie serão estudados no capitulo que segue.

usos E PRODUGTOS

A propósito, escreve L. Figuier: «O rangifero é um animal precioso para as populações desherdadas que vivem dispersas pelo circulo polar. Sem elle, a existência do homem seria impossível n'estes rudes climas. Custa a fazer uma idéa exacta dos serviços que o rangifero presta a al- gumas populações septentrionaes, nomeadamente aos Lapões. Para estes o rangifero representa simultaneamente de cavallo, de boi e de car- neiro. Com eífeito, reduzido ao estado domestico, atrela-se como um ca- vallo e arrasta com rapidez trenós e carros; a velocidade de que dis- põe é mesmo superior á do cavallo, apesar de correr sobre o gelo. Sobre um terreno solido, o rangifero pode percorrer sete a oito léguas por hora; geralmente percorre quatro ou cinco sem esforço n'aquelle espaço de tempo. No palácio do rei da Suécia existe o retrato de um rangifero que transportou um official encarregado de despachos urgentes, á distancia de trezentas e vinte léguas em quarenta e oito horas, o que representa uma velocidade constante de seis léguas e meia por hora. Chegado ao seu destino, o pobre animal caiu morto.

«... Não assignalamos ainda a qualidade verdadeiramente essencial d'este ruminante das regiões árcticas. A fêmea um leite superior ao da vacca, do qual se faz uma manteiga e um queijo de excellente gosto. A carne, que é magnifica, constitue um precioso recurso . ahmentar, quasi o único nas regiões polares. O pôUo do rangifero fornece cober- turas espessas e quentes e a pelle transforma-se em um coiro macio e forte, que serve admiravelmente para a fabricação de calçado. Com os pêllos rijos das patas do rangifero guarnece-se as